terça-feira, 6 de maio de 2014

O homem perfeito

1º Ato



Cláudia encontrou o "homem perfeito" ainda aos 16 anos. Assim, de bobeira, no bar com sua turma de amigas.


Foi um 1º de maio diferente aquele de 1995, ela sabia logo ao acordar. Tinha saído bem cedo para o trabalho e voltou para casa ainda antes do almoço, porque a manhã não estava promissora para um clube recreativo. Um dia nublado e frio.

Passou o resto do dia esperando a hora para sair, como em todas as sextas-feiras fazia, ir a um bar ver dois amigos tocarem. Nessa em questão, não podia ser diferente.

Cláudia se aconchegou na mesa corriqueira e ficou ouvindo as músicas boas, batendo papo com as amigas, tudo normal, como tinha que ser.
Foi quando avistou do outro lado do bar um grupo de rapazes que não lhe chamou atenção a princípio.

Uma das amigas, Suzana - ruiva, alta, corpo exuberante - chamou a atenção de um dos rapazes que veio à mesa, se apresentou e trouxe os outros para se juntar às meninas.

O destemido rapaz, de nome Walter, era o que se podia intitular "perfeito": bonito, inteligente, gentil, bom gosto musical e um papo extremamente agradável.
Raridade nos meninos que ela conhecia.

Cláudia não era bonita, nem exuberante. Era atraente pela alegria que demonstrava, além da inteligência. E o que é a beleza, então? Talvez esteja presente muito mais na essência que a aparência e a exuberância não podem superar...

Não foi difícil para os dois engatarem uma bela conversa e logo se transportaram para um mundo só deles.
A mesa e as pessoas que nela estavam já não existiam.

Os dois conversaram sobre as músicas e os gostos em comum, conversaram sobre o trabalho e sobre todos os assuntos possíveis e cabíveis naquelas poucas horas.
Ele era um viajante e ela trabalhava num bar.

Ela pediu ao amigo cantor que tocasse “Aquarela” do Toquinho, sugestão do “homem perfeito”.




Ao se despedirem, ele lhe entregou um adesivo com o número do seu telefone e os dois ficaram de se ver de novo.
Walter a convidou para irem ao cinema no domingo à tarde e combinaram de se encontrar num shopping no centro da cidade.

Dois dias de muita ansiedade, finalmente se encontraram.
Ele levou seu irmão e ela, sua amiga Suzana.
Foram ver o filme mais novo do Brad Pitt, que era até bom, mas nada é tão bom quanto um romance que começa dentro do cinema.

Primeiro ele segurou sua mão e ela se aconchegou em seu ombro. E assim ficaram por um bom tempo. Depois ele começou a mexer em seus cabelos e em algum momento, meados do filme, ele segurou delicadamente seu rosto e a beijou. Demoradamente. Nunca ninguém a havia beijado daquela forma com cuidado, carinho, como quem segura algo tão frágil que poderia se desmanchar.

O filme ficou lá em algum lugar.

O resto da noite eles se beijaram e conheceram muitos lugares pela cidade.
Um novo encontro marcado. Ele a buscaria na escola na sexta para irem ao clube. Uma aventura de caiaque. Um terceiro encontro que não aconteceu.




2º Ato




Ele a buscaria na escola na sexta-feira para o passeio no horário combinado.
O cenário era a porta do colégio onde ela estudava.
Ela se arrumou cuidadosamente com a ajuda das amigas no vestiário e foi esperá-lo às 12:30. 

Mas ele não apareceu.

Ela aguardou pacientemente até a aula do turno da tarde começar, às treze horas, e ele nada.
Cláudia resolveu ir embora, chateada, pensando que ele tinha lhe "dado o bolo".

Eles nunca falaram sobre isso.

Mas ela soube pelo tio do rapaz (que trabalhava na farmácia da cidade), que o que houve na verdade foi um desencontro, que ele havia chegado muito antes e pensou que a aula já tinha acabado.
Mas nunca se pôde confirmar tal fato.

Meses depois, num reencontro, se cumprimentaram e não tocaram no assunto.

Após cinco anos outro encontro, no trabalho dele.
Ele a tratou de forma profissional e ela fez o que havia se proposto: consultar um pacote de viagens.

Nunca mais se viram.

Em devaneio, ela imaginava o grande amor que poderiam ter vivido. E ele? Os devaneios não poderiam alcançá-lo, jamais saberia o que o “homem perfeito” pensara. E a história, como um conto aberto, “terminou sem terminar”, com a indagação do que poderia ter sido, o gosto não experimentado e a ânsia por algo que até então só o imaginário é capaz de satisfazer...






3 comentários:

  1. Eu não existo e nem você 'Perfeita", mas todo sonho é valido, todo desejo não saciado poderia ter sido o melhor, ou não. Como você "Perfeita", eu também perdi as chances do amor verdadeiro por um se..., mas se era verdadeiro mesmo, não sei, não era para ser, seria comigo diferente, poxa, "por que não eu" era quase um hino.
    Após me decepcionar com os meus amores perdidos, apesar de no fundo ainda guardar suas migalhas de carinho, percebi o quanto fui mais feliz tendo perdido.
    Encontrei na imperfeição a minha alma gêmea. E brigar com ela, me faz pensar em ser melhor do que sou e aceitar que Eu não existo e nem você 'Perfeita".
    Ass.: Perfeito!!! (ou bem longe disso)

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  2. Ah meu querido amigo, esse depoimento me deixou muito emocionada. Bom saber que tem gente que acredita no verdadeiro amor. Bom saber que não estamos sozinhos. Só por isso somos perfeitos em nossa imperfeição.

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  3. Boa tarde Chris.
    Certa vez li num blog seu um texto do qual gostei muito onde abordava a questão de que "o amor morre".
    Mais precisamente, este texto estava no seguinte link: http://chrisvaliceli.blogspot.com.br/2011/03/o-amor-morre.html?m=1
    Hoje fui atrás desse texto para compartilhar com uma pessoa próxima de mim porém não mais o encontrei (o link está fora do ar).
    Já procurei esse texto por tudo, porém sem sucesso.
    Você por acaso o teria aí para me enviar?
    Agradeço desde já a atenção

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